
A East Side Gallery, mural a mural: o que as pinturas dizem de verdade
É o troço mais longo que resta do Muro de Berlim e o mais fotografado: 1.316 metros de betão junto ao Spree, pintados de ponta a ponta na primavera de 1990 por 118 artistas de 21 países. Quase toda a gente que vem tira a mesma fotografia do mesmo beijo e vai-se embora. É pena, porque o muro está a dizer coisas muito concretas e quase nenhuma está escrita no local: os painéis não têm legenda. Este guia percorre a galeria mural a mural: de que fala cada pintura, onde estava quem a fez, e o que era afinal o betão por baixo da tinta.
O Muro em Berlim
A East Side Gallery mural a mural, com um passeio áudio gratuito da Ostbahnhof até à Oberbaumbrücke.
Tópicos
O que está mesmo à sua frente
A East Side Gallery estende-se por 1.316 metros ao longo da Mühlenstraße, entre a Ostbahnhof e a Oberbaumbrücke. É o maior pedaço do Muro de Berlim ainda de pé onde foi construído, e está classificado como monumento desde novembro de 1991, pouco mais de um ano depois de ter sido pintado.
Vale a pena saber uma coisa antes de o percorrer, porque no local ninguém a diz. Este betão não é o muro que o mundo via na televisão. É o muro interior, o que dava para Berlim Leste, e durante vinte e oito anos o lado onde está agora era a faixa da morte. A fronteira passava no rio: este troço do Spree pertencia a Berlim Leste de margem a margem, e foi por isso que houve pessoas que se afogaram a atravessar uma água que parecia liberdade.
As pinturas estão, portanto, do lado que quase ninguém podia ver. Foram feitas na primavera e no verão de 1990, nos meses entre a abertura da fronteira e a reunificação, por 118 artistas de 21 países que vieram a Berlim porque o muro se tornara de repente uma superfície ao alcance de qualquer um. A galeria foi inaugurada a 28 de setembro de 1990.
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O beijo que toda a gente fotografa
Dois homens de fato escuro, boca contra boca, sete metros de largura. São Leonid Brejnev, líder da União Soviética, e Erich Honecker, chefe da Alemanha de Leste, e a pintura é «Meu Deus, ajuda-me a sobreviver a este amor mortal», de Dmitri Vrubel.
Não é invenção. Vrubel trabalhou sobre uma fotografia do fotojornalista francês Régis Bossu, tirada a 7 de outubro de 1979 nas celebrações do trigésimo aniversário da RDA. O que se vê é o beijo fraternal socialista, protocolo político entre dirigentes aliados: boca com boca, em público, de propósito. A fotografia de Bossu correu mundo precisamente porque esse protocolo parecia, a olhos ocidentais, outra coisa completamente diferente.
O título percorre a parte de baixo em russo e alemão. Lê-se como uma oração, e não é dirigido aos dois homens mas à aliança: sobreviver a um amor que estava a matar o país que abraçava. Vrubel pintou-o em 1990 e repintou-o ele próprio em 2009. É a imagem mais reproduzida de todo o muro, e de pé à frente dela vêem-se as pinceladas que os postais achatam.
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O Trabant que atravessa o muro
Um Trabant — o carro pequeno, lento e de dois tempos que a RDA fabricou durante trinta anos e pelo qual as famílias esperavam uma década — atravessa o betão de frente, com as fendas a sair do capô. A pintura é de Birgit Kinder.
Repare na matrícula: NOV 9–89. O 9 de novembro de 1989, a noite em que a fronteira abriu. Nessa noite os Trabant passaram mesmo, aos milhares, para-choques com para-choques pela Bornholmer Straße e por todas as outras passagens, entre buzinas e flores de berlinenses do Oeste que nunca tinham visto tantos ao mesmo tempo.
O carro é a piada e o argumento ao mesmo tempo. Um Trabant não tinha nada de potente: resina reforçada com algodão, mal conseguia ultrapassar. O que partiu o muro não foi a força, mas um número enorme de pessoas muito comuns a conduzir carros muito comuns na direção de um guarda de fronteira que ficara sem ordens.
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Os rostos de novembro
Uma enxurrada de cabeças avança na sua direção por uma brecha do muro, dezenas delas, pintadas em tons de pele pálidos. É «Es geschah im November» — «Aconteceu em novembro» —, de Kani Alavi, pintor nascido no Irão e a viver em Berlim desde os anos oitenta.
Alavi viu aquilo. Na noite de 9 de novembro de 1989 estava à janela perto do Checkpoint Charlie, por cima da rua, enquanto a multidão passava por baixo. O mural é essa vista: a multidão de frente, espremida por uma abertura pequena de mais para ela.
Olhe os rostos um a um e o mural deixa de ser uma celebração. Alguns estão eufóricos. Outros com medo. Outros simplesmente vazios, a expressão de quem ainda não sabe o que acabou de acontecer à sua vida. Alavi contou que queria a gama inteira, não a versão que já estava a ser montada para a televisão.
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Os murais onde ninguém para
Entre os três painéis famosos há mais de cem, e a multidão dissolve-se a poucos metros do beijo. «Danke, Andrej Sacharow» agradece a Andrei Sakharov, o físico soviético que ajudou a construir a bomba de hidrogénio do seu país e passou o resto da vida a fazer campanha contra ela, recebeu o Nobel da Paz em 1975, foi por isso desterrado dentro do seu próprio país e morreu em dezembro de 1989 — cinco semanas depois da abertura do muro.
«Marionetten eines abgesetzten Stücks» — marionetas de uma peça retirada de cena — mostra figuras penduradas em fios que já ninguém segura. Pintado em 1990, fala do que acontece a quem representou um sistema quando o sistema deixa de ser representado.
Mais à frente, figuras de fato branco de proteção e máscaras de gás estão em fila. Esse fala de Chernobil, com quatro anos à data da pintura e ainda indizível no Leste. São estes os painéis onde vale a pena abrandar: não há fila, e é aí que a galeria deixa de ser um cenário e passa a ser um argumento.
O que aconteceu às pinturas
Tinta de exterior sobre betão sem primário não dura. No início dos anos 2000 a galeria estava rachada, desbotada e coberta de tags; em 2009 o muro foi decapado e os artistas convidados a repintar as suas obras de raiz. A maioria fê-lo. Alguns recusaram, com o argumento de que uma pintura de 1990 repintada é uma cópia de uma pintura de 1990, e de que a degradação também fazia parte do registo.
O muro também foi movido e cortado. Retiraram-se troços para abrir acessos ao rio, e em 2013 a remoção de um pedaço para uma construção na margem levou milhares de pessoas a plantar-se à frente das máquinas. Uma parte saiu à mesma.
Por isso, aquilo por que passa não é uma peça congelada de 1990. É um monumento repintado, defendido, discutido e pintado por cima sem parar há trinta e cinco anos — o que, para um muro, é uma vida póstuma mais honesta do que ser conservado intacto atrás de um vidro.
Percorrê-la mural a mural
Se vai a Berlim, este é o passeio a fazer aqui. Comece na Ostbahnhof e caminhe para leste com o rio à esquerda; acaba na Oberbaumbrücke, a ponte de tijolo de dois níveis que foi ela própria uma passagem entre Leste e Oeste. Direito, plano, 1,3 quilómetros. Uma hora se parar, vinte minutos se não.
O problema é que os painéis não têm legenda. Nada lhe diz que pintura é qual, quem a fez ou porque está ali, e assim cem murais viram papel de parede em cinco minutos — que é exatamente por isso que a maioria fotografa o beijo e vai-se embora.
Por isso fizemos o percurso como audioguia gratuito, mural a mural. Mostra-lhe por onde ir e começa cada história no momento em que chega junto da pintura, na sua língua e por ordem. Sem bilhetes, sem ponto de encontro, sem grupo a acompanhar: o ritmo é seu, e olha para o muro em vez de para um ecrã.

Fazer este percurso
A Galeria do Lado Leste, Mural por Mural
6 paradas · 46 min · Berlin
O trecho mais longo do Muro de Berlim ainda de pé, pintado por artistas de vinte e um países na primavera após sua queda. Seis paradas ao longo do rio, da Ponte Oberbaum aos murais que tornaram o muro famoso.
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Abrir o tourComo visitar
É ao ar livre, gratuita e nunca fecha. As estações mais próximas são a Ostbahnhof numa ponta e Warschauer Straße na outra; não há bilhete, nem fila, nem horário para encaixar.
Vá cedo ou ao fim do dia. A meio do dia os painéis famosos têm três filas de pessoas a tirar a mesma fotografia, e a luz vem do rio direita à objetiva. De manhã cedo está vazio e a tinta está no seu melhor.
Uma coisa que vale a pena dizer: ainda há quem escreva por cima dos murais, e a iniciativa dos artistas passa anos a limpar isso. O muro já carrega as marcas de todos os que passaram. Acrescentar a sua não lhe acrescenta nada.
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